sexta-feira, 28 de julho de 2017

THE BEATLES - ESPECIAL MAD DAY OUT - UM DIA NA VIDA

O dia 28 de julho de 1968 -  um domingo, entrou para a história como “MAD DAY OUT”, um dia em que os Beatles sairam completamente da rotina exaustante das gravações do álbum branco, para passarem o dia posando para centenas (talvez, milhares) de fotos feitas por um time de fotógrafos comandados pelo experiente Don McCullin por vários lugares de Londres. Precisavam fazer essas fotos porque sabiam que seu material de divulgação para o novo disco da Apple estavam velhas, e mostravam uma imagem “ultrapassada”. Várias dessas fotos foram usadas para a promoção de novos singles e o próximo álbum, o “Branco”. Naquele dia, eles fizeram o que tinham de fazer: relaxaram, e aceitaram bem às sessões com tantos fotógrafos. Todos se comportaram bem e a imagem que passavam era a de que estavam felizes. Os Beatles escolheram Don McCullin (veterano de guerras) como fotógrafo oficial. Mas também havia mais outro grupo de fotógrafos: Tom Murray, Tony Bramwell, Ronald Fitzgibbon e Stephen Goldblatt. Com seu estilo característico, McCullin usou cerca de 15 rolos de filme para registrar a banda da Old Street até a área de Limehouse, voltando até a casa de Paul no bairro St. John’s Wood. Embora a existência das fotos fosse conhecida por muitos, quase todas essas imagens permaneceram inéditas. Para a geração que viveu aqueles anos, elas despertam lembranças comoventes de uma antiga juventude. Para os mais jovens, apresentam o vislumbre da história concentrado em um único dia.

Em 2010, foi lançado aqui no Brasil o livro "Um dia na vida dos Beatles" que reúne 92 fotos, muitas inéditas, tiradas naquele fantástico dia por Don McCullin em 1968.
Era junho de 1968. O grupo (ainda não havia a palavra “banda”) vivia uma “fase sombria”, nas palavras de Paul McCartney no prefácio do livro. Foi nesse período que, segundo o músico, surgiu o termo “heavy” (pesado) para designar o estado de espírito dominante. A revolta estudantil na França havia sido sufocada, a Guerra do Vietnã e a fome na África estavam no auge. Paul, John Lennon, George Harrison e Ringo Starr trabalhavam no Álbum branco – e queriam alterar a imagem e a atitude após a onda psicodélica que geraram pelo álbum de 1967, Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band. Segundo Paul, os quatro músicos ansiavam por algo diferente para capas de discos, revistas e promoções. Assim chamaram Don McCullin para o novo trabalho. Ele já era famoso por suas aventuras no Vietnã e na África como contratado pela agência Magnum e pelo jornal The Sunday Times. “Pensei que fosse uma brincadeira quando atendi o telefonema da gravadora Apple”, diz McCullin a ÉPOCA. “Eles me ofereceram 200 libras para fotografar os Beatles. Eu disse que pagaria 200 libras por isso!” A quantia era alta, e ainda fizeram outra oferta: 500 libras para a foto da capa da revista Life, além do direito sobre os negativos.
McCullin, hoje com 81 anos, conta que tinha acabado de chegar do Vietnã, onde havia testemunhado as batalhas mais sangrentas. “Eu já era o que sou hoje: um fotógrafo interessado em temas políticos e em denunciar a violência da guerra e a miséria do Terceiro Mundo”, diz. “Não tinha nada a ver com os Beatles. Eu me sentia desconfortável diante de gente famosa.” Mesmo assim, venceu a rejeição e marcou o encontro para um domingo, 28 de julho.
 “Começamos em um estúdio no prédio do Sunday Times”, diz McCullin. “Eles eram rapazes bacanas e atenciosos, embora não deixassem de se comportar com a extravagância das celebridades.” McCullin notou que o quarteto não estava acompanhado por assessores. A exceção foi Yoko Ono, mulher de John, que monitorou de perto o passeio. Fizeram as fotos coloridas para a revista, entre brincadeiras. Em seguida, McCullin levou-os a passear pela cidade.
Aqui, com a exclusividade de sempre, a gente pode conferir o prefácio escrito por Pual McCartney para o livro de "UM DIA NA VIDA DOS BEATLES":
Minha impressão inicial foi a de que editar um livro a partir de uma única sessão de fotos era algo que jamais funcionaria, mas, como fizemos muitas coisas ao longo desse dia, aca­bou dando certo. Para nós, esse foi um dia extraordinário. Naquela altura, em 1968, queríamos algo diferente. Estávamos produzindo o Álbum Branco e passando por uma fase sombria. Era um ótimo disco, mas muito difícil de ser feito. Não por nada, nessa mesma época surgiu a expressão “heavy”. Conhecíamos Don McCullin por suas fotos de guerra. Todos nós tínhamos interesse pela fotografia, que estava então na linha de frente da cultura. Fomos fotografados pratica­mente por todo mundo. Trabalhamos com os maiores fotógrafos, como Avedon, Parkinson e Bailey. Nós sabíamos que Don era muito bom. Ele não ficava disparando a torto e a direito, era alguém muito atento ao rosto hu­mano. Como sempre estávamos em busca de imagens para capas de discos e revistas, pen­samos então em convidá-lo. Pouco importava se era conhecido por suas imagens de guerra. Isso não o tornava menos fotógrafo. Cheguei vestindo um temo rosa e ele fez algumas fotos coloridas. Também havíamos levado outras roupas. Sugerimos alguns locais, e Don indicou outros. Fomos ao ce­mitério e até a margem do rio. De repente, acabamos num salão com um piano e um papagaio, tudo muito surreal, surreal como toda aquela época. Eu costumava ficar em casa ouvindo mú­sica com Robert Fraser, dono de uma galeria de arte. Uma vez, disse a ele que gostaria de ter uma construção bem extravagante. Eu adorava essa ideia. Então ele me apresentou a um arquiteto inglês que projetou para mim um domo geodésico. Era ali que eu costu­mava meditar. O domo ainda existe e para chegar lá é preciso passar por um pequeno jar­dim japonês. E foi no domo que todos fomos parar no final daquele dia. Don é um cara muito legal. Ele é um dos grandes fotógrafos britânicos. Pensamos que nós mesmos teríamos de ser a guerra. Vamos providenciar o campo de batalha e tudo vai dar certo. Ele simplesmente vai acompanhar toda a ação. E foi exatamente o que aconteceu. PAUL McCARTNEY maio de 2010
E aqui, a introdução do livro, escrita por Don McCullin:
Uma Louca Escapada - Não fazíamos a menor ideia de como tudo aquilo ia acabar. Simplesmente não sabíamos de nada. Um dia, em 1968, recebi um telefonema e na hora pensei que fosse um trote. Uma voz masculina desconhecida disse que estava li­gando da gravadora Apple para saber se eu tinha interesse em passar um dia inteiro foto­grafando os Beatles em troca de duzentas libras. Eles estavam um pouco cansados do modo como vinham sendo fotografados e queriam um lote de imagens novas. Os negativos seriam devolvidos e eu poderia ficar com os direitos. Suponho que, por estarmos em 1968, ano com tantas implicações políticas, eles acharam que seria bom trabalhar com um fo­tógrafo que lidasse bem com temas políticos. Mal sabiam que, ao ouvir a proposta, eu me senti levitando alguns centímetros acima do chão. Eu teria pago a eles as duzentas libras. Foi um domingo estranho. Saí dirigindo de Hertfordshire até Londres para trabalhar com o grupo mais famoso do mundo. De certo modo, fiz tudo como se estivesse en­volto em uma névoa. A cidade estava tran­quila e nos encontramos no prédio do jornal Sunday Times, na Gray’s Inn Road. No último andar, Tony Snowdon montara um estúdio de fotografia. Não havia nenhuma pauta: a única coisa definida é que queriam uma foto colorida para ser publicada na capa da revista Life. Usei um filme Ektachrome, e a camisa amarelo berrante do Ringo se destacou vividamente do azul do paletó. Então, liguei um grande ventilador. Foi o caos. Não sou fotó­grafo de estúdio. Estou acostumado com o campo de batalha. Eu sabia como lidar com certos tipos de desastres fotográficos, mas não com algo dessa magnitude. Fiquei um pouco apavorado e sem saber o que fazer. Não es­tava habituado ao ritmo do mundo deles. Em­bora já tivesse estado no meio de muitos combates de rua, aquilo era completamente diferente. Além disso, os quatro, no ápice de seu poder, eram personalidades muito distin­tas. John Lennon e Paul McCartney eram ob­viamente os líderes. George Harrison era o mais contido, e Ringo dava a impressão de se manter um pouco recuado. A máquina de vento remexia os cabelos, e aqueles rostos famosos me lembravam as figuras no monte Rushmore. Porém, para o meu assombro, deu tudo certo e conseguimos uma imagem ótima para a capa. Pensando melhor agora, considerando que a Life costumava pagar quinhentas libras por foto de capa, é possí­vel que eu tenha tido prejuízo, mas, seja como for, eu estava vibrando. A matéria publicada pela revista estava repleta de fotos feitas por muita gente. Antes desse dia enlouquecido, os Beatles haviam sido tema de vários fotógrafos de primeira linha. Já é bastante complicado lidar com uma única pessoa cara a cara, mas ali eu estava diante de quatro pessoas. E cer­tamente eu não tinha a personalidade ou o charme para enfrentar a situação como o fa­riam Bailey, Lichfield ou Terence Donovan. Além disso, não contava com o esquema deles de assistentes. Tinha de me virar sozinho. Quando saímos do Sunday Times fomos até um pequeno parque logo ao norte de King’s Cross, e depois rumamos para o East End e a Cable Street. Teria sido um caos se eu os tivesse levado para o West End. Sem dúvida ocorreriam tumultos. E achei que gostariam do East End, sobretudo da beira do rio e da atmosfera das docas, que talvez associassem com Liverpool. Além disso, eu conhecia partes de Whitechapel como a palma da minha mão. Logo percebi como era John, mas só notei que a mulher dele iria nos acompanhar quando entrei na limusine. Lembro de estar sentado com eles quando outro carro parou ao lado. Era uma família e pareciam todos amarrotados, como se estivessem de ressaca, e eles olharam para nós. Quando percebe­ram de quem se tratava, começaram a bater nas janelas e a acenar. Lennon fez apenas um aceno de volta, xingando-os enquanto movia a mão. Quando chegamos à rotatória da Old Street, simplesmente pedi que saltássemos ali. Uma vez que estavam lá, obviamente eles acharam que poderiam inventar algo e, de maneira espontânea, passaram a atuar para mim. Não dava para dirigir pessoas como aquelas. Eles é que criaram a coreo­grafia. Os motoristas de táxi que passavam ficaram boquiabertos ao topar com aquele espetáculo gratuito. Em seguida descemos até o rio, em Limehouse, onde ainda havia belas casas georgianas de capitães da Marinha. Lennon começou a tirar a roupa e logo foi seguido por Paul McCartney. Imagino que nessa altura já es­tavam mais descontraídos. Foi então que fiz essa foto bizarra, na qual Lennon posa como se estivesse morto. Talvez apenas fizesse de conta que dormia, ou que estava bêbado, mas estou convencido que ele de fato estava en­cenando a própria morte. E preciso lembrar que era o ano de 1968, no auge da Guerra do Vietnã, da qual eu acabara de voltar. Eu estava com uma Nikon F, a mesma que usara no campo de batalha. Para mim, tudo o que Lennon fazia era uma forma de protesto. Todas as suas atitudes pareciam brotar da indignação. Havia muitas contradições nele. Ele era um homem talentoso que podia falar de paz e amor, mas no fundo era impetuoso e agressivo. Já Paul McCartney era bem mais caloroso. Anos depois, Paul me pediria para fotografar mulheres de semblante tristonho para representar Eleanor Rigby, e as imagens foram projetadas em uma tela imensa num de seus shows. Depois fomos para um estranho salão comunitário em alguma parte no East End. Alguém apareceu com um papagaio. A luz era terrível e fiquei todo atrapalhado ao re­carregar as câmeras. Havia ali um velho piano de armário, com o qual logo come­çaram a brincar. Em seguida voltamos para a casa de Paul McCartney, em St. John’s Wood, e, depois de tomarmos chá, saímos para o jardim, onde havia um domo, uma estrutura que parecia saída de um filme de James Bond ou de ficção científica. Ficamos todos dando um tempo ali, juntamente com um imenso cão peludo, naquele estranho es­paço futurista. Acabei me curando de todo sentimento de inferioridade que talvez tivesse tido anos antes, mas jamais consegui me sentir muito confortável ao fotografar gente famosa, e não dá para imaginar alguém mais famoso do que aqueles quatro. Talvez eles tenham ficado decepcionados comigo. Não lhes disse nada de muito interessante. O dia foi uma série de acontecimentos aleatórios. Eles sim­plesmente mergulhavam nas situações. E se mostravam totalmente receptivos. Eles me proporcionaram todas as oportunidades, e depois assumiram o controle. E foi ótimo que tenha sido assim.

3 comentários:

Joelma disse...

Muito legal esse dia. Na primeira vez que vi a foto do Lennon caído eu tomei um susto.
Ainda bem que houve esse dia de fotos tão marcantes

Benilson Silva disse...

Legal é ver que apesar de toda a fama, qdo eles queriam eram simples mortais.

Valdir Junior disse...

Imagino o clima dessa sessão de fotos.