domingo, 31 de janeiro de 2016

SÁBADO SOM - ROBERTO CARLOS CANTA PARA A JUVENTUDE

Por João Carlos Mendonça 

O título já entrega tudo OK? Mas na verdade foi com este disco que o RC delineou definitivamente seu estilo e seu público e, por conseguinte, foi convocado para liderar o programa/movimento que todos conhecemos como Jovem Guarda. O rapaz já tinha chegado às paradas de sucessos com “O Calhambeque”, “Parei Na Contramão”, “É Proibido Fumar” e “Splish Splash”, entretanto, nenhum de seus discos anteriores estouraria tão fortemente quanto este LP lançado em 1965 e que a maioria dos pesquisadores concorda ser fortemente influenciado pelo “British Rock”. De fato, há ecos daquele feitio no álbum, porém ouvindo-o agora em CD remasterizado, notei que há muito mais “surf music” e até “rockabilly” americanos ali, inclusive nas baladas.Interessante registrar que como ainda não era o “tamposo” da CBS naquela ocasião, a banda básica era bem econômica: os amigões de sempre, Bruno e Dedé, respectivamente no baixo e bateria, o tinhoso e popular organista Lafayette, José Provetti na guitarra e o próprio Roberto assumindo a guitarra base. Mas, o que pouca gente sabe é que as canjas de dois guitarristas infernais, Gato e Renato Barros (aquele dos BLUE CAPS) e o saxofone não menos feroz do Miguel dos FEVERS, foram fundamentais, fazendo deste LP talvez, o melhor da época, embora tenha acontecido antes do grande “big bang” que viria logo em seguida ao seu lançamento. E isto é fácil de constatar, bastando contar o número de músicas do disco que se sucediam e/ou se ombreavam nos primeiros lugares em execução nas rádios, além das vendas nas lojas.Oh disquinho bom danado! Absolutamente gracioso e muito mais inocente que bobo. Saltam aos olhos (e ouvidos) convicção, atitude, determinação e até certos “preciosismos” nos arranjos e execuções das canções. Olhando pra trás, em comparação aos colegas como Wanderley Cardoso e Jerry Adriani, que cantavam ainda no estilo “dó de peito”, com aquelas solenes impostações vocais, RC vinha da escola da Bossa Nova: voz coloquial, sem arroubos e que ficava bem mais próxima do “rock and roll” (até com aqueles “gritos” e manhas… quando necessários). Outro fato digno de nota é que havia apenas duas versões no disco: “HISTÓRIA DE UM HOMEM MAU”, um tema jazzístico (no original de Louis Armstrong) transformado numa pegada mais “country-rock” (assim como na faixa final, “ROSITA”) que acompanha o duelo “cowboy” da versão. Já “BRUCUTU”, soa um pouco datada, mas fez sucesso na ocasião por explorar um personagem dos quadrinhos, então famoso.As canções de andamento mais lento que entremeiam o álbum, não ficam na mesmice. A balada clássica “NÃO QUERO VER VOCÊ TRISTE”, além da agradável melodia, apresenta uma tremenda novidade para a ocasião: RC recita a letra, conversando ao pé do ouvido (mas sem apelos eróticos sussurrados), foi sucesso absoluto. “OS VELHINHOS”, com sua letra beirando a “pieguice”, funciona bem, devido ao estilo “doo-wop”/Beach Boys. Com os andamentos do “rock inglês”, temos o hit inevitável de “AQUELE BEIJO QUE TE DEI” (Édson Ribeiro) e nas balançadas “COMO É BOM SABER” da lendária Helena dos Santos e “PAREI… OLHEI” do Rossini Pinto.Nos rockões beira do mar com tudo de bom, a coisa pega com “NOITES DE TERROR” do negro gato Getúlio Cortes (engraçado que aquela voz “fantasmagórica” sabe-se lá de quem, e os gritos assustados do RC, que naquele período pareciam meio improvisados demais, agora soam ótimos para o clima da música), e na super anos 60, “OS SETE CABELUDOS”, com direito a briga de turmas pela Lili que, no final, prefere um cara “da paz”. Muito bom.Para o meu gosto particular, as duas pérolas mais brilhantes do disco foram escritas pela dupla Roberto/Erasmo, são “a cara” do início daquela década: “A GAROTA DO BAILE” é um rock puxado pelo sax, que narra a ansiedade do rapaz que, caído pela garota, hesita em chamá-la para dançar, já beirando os ’45 do Segundo Tempo (quem já passou por uma dessas?). Por sua vez, “EU SOU FÃ DO MONOQUINI”, que tem uma malemolência e um “riff” de guitarras cheias, contagiantes (lembra O Calhambeque), e olha só, fala de uma tremenda gata que ousa desfilar na praia de “topless”. Isso mesmo. Aliás, o neologismo “monoquíni” ainda soa melhor que o nome “bretão”. Sensacional. Embora este álbum nunca tenha disfarçado sua intenção e a quem se destinava, tornou-se um marco saboroso para ouvidos e corações de quaisquer idades. Afinal, depois de tantos anos, ainda posso confessar que também sou fã do monoquíni! Uma brasa, mora?

3 comentários:

Edu disse...

ô Disquinho bom! E tão bom quanto é o "É Proibido Fumar", que já apareceu aqui, inclusive para download. Supimpa, JC!

João Carlos disse...

Eu fico mesmo todo ancho! E quem não ficaria? Por isso é sempre uma honra ser reproduzido no Baú. Que aliás, tem livre trânsito no Sábado Som e publica o que e quando quiser.

Willians disse...

Discaço, é o nosso rei.