quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

SOBRE A TRISTE NOTÍCIA DA MORTE DE DAVID BOWIE

“Toda vez que morre uma grande estrela do Rock, a gente se sente mais morto um pouquinho também”. Confessso que nunca fui fã e sequer tinha algum disco dele. A verdade é que não gostava mesmo, talvez porque não entendesse. Nos anos 1970, eu vivia o auge de minha beatlemania, e cada disco que conseguia, tinha de escolher bem. Como fã dos Beatles, para cada um que comprava, ainda restavam zilhões que eu não conhecia, e que passavam a ser prioridade pra mim. Assim, bandas como os Doors, Led Zepelin, Queen e Who, e artistas como Hendrix e o próprio Bowie, acabaram quase despercebidamente de propósito, passando por mim, com a minha eterna negligência dizendo para o universo: “um dia, pode ser que eu tenha tempo para isso”. Talvez, esse tempo tenha chegado agora. Esta semana, o mundo foi surpreendido pela notícia da morte de Bowie. Como não acompanhava sua carreira, nem ao menos sabia que estava doente, mas também me entristeci e lamentei.
David Bowie, nome artístico de David Robert Jones, nasceu em Brixton, Londres, em 8 de janeiro de 1947, e morreu em Manhattan no dia 10 de janeiro de 2016 com 69 anos. Foi cantor,compositor, ator, produtor musical e um dos maiores ícones do rock nos anos 70.
Por vezes referido como "Camaleão do Rock" pela capacidade de sempre renovar sua imagem, tem sido uma importante figura na música popular há cinco décadas e é considerado um dos músicos populares mais inovadores e ainda influentes de todos os tempos, sobretudo por seu trabalho nas décadas de 1970 e 1980, além de ser distinguido por um vocal característico e pela profundidade intelectual de sua obra. Sua morte, causou uma comoção em todo o mundo e, confesso, me surpreendi com o tamanho da repercussão que causou.
Yoko Ono, viúva do ex-beatle John Lennon, prestou sua homenagem a David Bowie, em seu site oficial, ela escreveu: “John e David se respeitavam muito um ao outro. Eles combinavam em intelecto e em talento. Tínhamos poucos amigos e sentia que Bowie era da família. Estava sempre por perto”. Ela ainda complementou: “Bowie tornou-se um tipo de figura paterna para nosso filho, Sean, após a morte de John. Quando Sean estava no colégio interno na Suíça, David ia buscá-lo e levá-lo, e também iam a museus juntos. Para Sean, perder outra figura paterna será difícil, eu sei. Mas temos muitas lembranças doces que vão ficar conosco para sempre”. Sean Lennon também prestou homenagem em seu Instagram: “Absolutamente devastado com a notícia. Eu me sinto tão sortudo por ter considerado você um amigo. R.I.P. e obrigado por tudo”.
Paul McCartney disse: "Irei sempre lembrar as ótimas risadas que tivemos ao longo dos anos. Sua estrela vai brilhar no céu para sempre", postou o ex-beatle no Facebook. O baterista Ringo Starr também se manifestou: "Deus abençoe David Bowie, paz e amor para toda sua família", disse, em sua conta no Twitter.
A cantora Madonna afirmou nas redes sociais que estava "devastada" pela notícia. "Este grande artista mudou a minha vida! Primeiro show que já vi em Detroit! Descanse em paz".
O cantor Iggy Pop, amigo e parceiro nos anos 1970, quando teve seu primeiro disco solo, "The Idiot" (1977) produzido por Bowie, afirmou que a amizade com o cantor "foi a luz da minha vida". "Eu nunca conheci uma pessoa brilhante assim. Ele foi o melhor que existiu", divulgou em seu Twitter.
Os Rolling Stones divulgaram uma nota em que diziam estarem "chocados" e "extremamente tristes. Assim como era um homem maravilhoso e gentil, era um artista extraordinário e verdadeiramente original".
Aqui, a gente confere o incrível texto do nosso amigo maestro João Carlos de Mendonça, publicado na coluna Sábado Som de 12 de janeiro de 2016.

“Não há mistérios na vida e na arte de David Bowie. Nem mesmo na alcunha eterna, CAMALEÃO. O magrelo suburbano londrino desde que adotou o acordeão, passando para o saxofone e posteriormente as guitarras, sempre deu sinais do que pretendia ou, o que não pretendia ser. Afinal, paralelo à música começou a fazer teatro e gastou um bom tempo estudando e aprendendo mímica. Todos estes elementos se agregariam de forma simbiótica à sua arte desde então. Antes, porém, militou em várias bandas do circuito “underground” inglês, sem sucesso e de 67 a 69 lançou, já como David Bowie, vários “singles” ainda sem atingir o grande público. Bowie era a novidade, mas uma novidade difícil, pois seu som embora influenciado pela onda psicodélica em voga, continha pitadas de outras vertentes musicais. A guinada veio em 1969 com a música “SPACE ODDITY”, que ele estrategicamente lançou na véspera da chegada do homem à lua, atingindo de imediato as paradas européias e abrindo as portas da América, alavancando o álbum que veio em seguida (agora considerado um dos melhores do R&R), onde misturava budismo tibetano, cinema, teatro, muita encenação e amor. À medida que sua arte ganhava o mundo, Bowie fazia questão de se aproximar de colegas que, como ele, iniciavam carreiras, bem como dos já então estabelecidos no mundo da música, tanto os influenciando, como bebendo em suas fontes. Já com MICK RONSON pilotando as guitarras, “THE MAN WHO SOLD THE WORLD” marcaria definitivamente o estilo que passou a ser denominado como “glam rock” ou “glitter”(na verdade o bom e velho R&R com visual andrógeno). Em 1972 ao retornar dos EUA, Bowie foi pra RCA, e com a preciosa colaboração de sua esposa Angela (Angie) passaria a mais que teatralizar, incorporar definitivamente os personagens que criava em seus discos. “HUNKY DORY” (com as músicas CHANGES e LIFE ON MARS) e com seu disco mais simbólico, “THE RISE AND FALL OF ZIGGY STARDUST AND THE SPIDERS FROM MARS” (ainda considerado a capa mais “bicha” do rock) atingiria o mundo de forma definitiva. O personagem, uma figura bissexual vinda de Marte para assumir a condição de “superstar”, encarnado de forma fantástica nos palcos, de fato o elevaria à condição de mito do pop. Um álbum repleto de clássicos, entre estes a icônica faixa STARMAN. Desde então, ficou fácil chamá-lo de CAMALEÃO, porque na medida em que ia finalizando um trabalho, ainda nos estúdios, começava a elaborar o próximo (e já com outros climas e personagens). Ainda mais ao trabalhar com LOU REED no icônico disco TRANSFORMER, de Lou, com Iggy Pop, com a banda MOTT THE HOOPLE e com seu “rival” amigo MARC BOLAN do T. REX. E em plena turnê de ZIGGY pelos EUA, com a sua persona bombando nas mídias, Bowie surpreenderia a todos (inclusive seus músicos) ao anunciar o fim da fase Ziggy Stardust. Afinal, ALADIN SANE já estava pronto para ser lançado, todavia ele embarcou para a França para urdir mais um clássico, que inesperadamente reunia apenas “covers” de outros artistas e de várias fases. PIN-UPS é uma pérola surpreendente, particularmente pela deliciosa versão do Camaleão para “SORROW”. Este álbum fecharia este ciclo. O que viria então? Bowie mudou-se pros EUA e mergulhou de cabeça nos ritmos e sentimentos da música americana com o imprescindível YOUNG AMERICANS, cuja música título chegaria ao topo, mas, antes alcançaria pela 1ª vez as paradas com “FAME”, sua parceria com Lennon (também nos vocais e guitarras). Assim resolveu fixar residência em Los Angeles e deu um tempo para participar de 3 filmes enquanto elaborava outra jóia: STATION TO STATION ( seu personagem agora era o THIN WHITE DUKE) com o hit “Golden Years”, que já apresentava sons “eletrônicos” e cuja excursão o levou à Alemanha, onde resolveu fixar residência, embevecido por Berlim. Note-se que nestas alturas, o guitar hero MICK RONSON pulara do barco já que os xodós de David Bowie então eram o mago dos estúdios e dos modernos sons “tecnos”, BRIAN ENO e o não menos votado TONY VISCONTI. Essas parcerias renderam 2 álbuns antológicos. “LOW” e “HEROES”, cheios de experimentações e de inspiração surrealista, além dos sucessos “Sound And Vision” e a comovente faixa título “HEROES”. Este último, também com a presença do fantástico guitarrista ROBERT FRIPP. Eis a tão evocada “TRILOGIA DE BERLIM”. Nesta fase, nada era mais “IN” do que Bowie. Citá-lo em filmes, peças e livros era algo obrigatório e a garotada “por dentro” tinha de curtir seu som. Desde então, o Camaleão virou ícone e atravessou décadas com o mesmo prestígio e qualidade de sempre. Entretanto, nada disso nunca o deslumbrou. Continuou sereno, consciente de seu papel, como um ator veterano da cena musical. Reduziu sua produção de novidades, mas sempre que aparecia, tinha o que dizer e o fez com a categoria renovada. Por isso tudo, leva o respeito e a admiração que sempre mereceu. Nunca misturou o David Bowie com o David Bowie. Na sexta-feira, dia 8 de janeiro de 2016, Bowie celebrou seu aniversário de 69 anos lançando seu último álbum, “BLACKSTAR”. No domingo, dia 10 de janeiro de 2016, voltou pra Marte”.

Paul McCartney, Mick Jagger e Elton John vão participar ao lado de outros 20 artistas de um concerto-tributo em homenagem a David Bowie, em Nova York, nos Estados Unidos. O show já estava agendado antes da morte do cantor e seria em homenagem aos 69 anos do músico. Porém, após a morte, ele foi alterado para um tributo que será realizado no dia 31 de março no Carnegie Hall. Em comunicado oficial, os organizadores do evento comentaram sobre a morte de Bowie. "A morte inesperada de David Bowie transformou esta homenagem na qual trabalhamos nos últimos sete meses em um tributo". Os organizadores também lamentaram a morte. "Estamos profundamente tristes por esta notícia. O momento da abertura de vendas para o público ganhou um timing bizarro. Este show ficou ainda mais emotivo. Descanse em paz David e que o amor de Deus esteja com você".

9 comentários:

Pedro RBC disse...

Oi Edu
Não só você, mas ninguém sabia da doença. Foi surpresa pra todo mundo, e talvez isso tenha ajudado na tal comoção mundial. Não que o cara não a merecesse a repercussão, mas nesses casos o impacto é muito maior.

De minha parte, devo dizer que sempre o achei muito mais atitude do que músico, mas um cara que recebe elogios como os que você reproduziu no blog merece muito respeito.

Saudações
Pedro
Feliz 2016 atrasado!

João Carlos disse...

Eita! Primeiro agradecer ao guru pela reprodução do texto do SS. E dizer que o meu caso foi parecido, só que que como havia as fitas K-7, fui me familiarizando com a obra dele (e de outros da época) pedindo aos amigos que gravavam 2 músicas ali, outras 3 acolá. Fui virar fã dele e de muita gente um tanto tardiamente. Hoje tenho um material mais ou menos representativo de tantos daqueles artistas.

Edu disse...

Saudaçôes Pedro. Feliz 2016 pra você também! Ainda mais atrasado!

Edu disse...

Eu também conhecia e dominava bem as fitas K-7. Mas eu era (e ainda hoje sou!), um jovem beatlemanícao radical que, qualquer forma de mídia que me atingisse, se não fosse dos Beatles, não me servia. E assim, o tempo passou e eu só fiquei mesmo com o que escolhi. E nunca me arrependi. Forever! Até o fim! And "That's The Way It Is". Obrigadão por tudo, amigo! Deixo aqui meu abração pro Bowie. Que vá em paz!

Gustavo Araújo disse...

Sensacional o post. E, caros amigos, vcs não sabem o que estão perdendo. Ouçam os discos Hunky Dory, the man who sold the world e ziğgy stardust q vcs irão se apaixonar. Minha formação é beatles, mas com 16, 17 anos fui apresentado ao bowie e nunca mais o abandonei. A 1a fase dele é demais. Experimentem!

Gustavo Araújo disse...

Sensacional o post. E, caros amigos, vcs não sabem o que estão perdendo. Ouçam os discos Hunky Dory, the man who sold the world e ziğgy stardust q vcs irão se apaixonar. Minha formação é beatles, mas com 16, 17 anos fui apresentado ao bowie e nunca mais o abandonei. A 1a fase dele é demais. Experimentem!

Valdir Junior disse...

Só mais recentemente comecei a ouvir o Bowie com mais atenção, sempre acompanhei de longe o que ele fazia, fiquei chocado com a sua morte, vai fazer muita falta.
No fundo vou ficando mais e mais preocupado com a idade e a morte, a minha, dos meu familiares e amigos e dos meus heróis. Life is very short and there's no time

João Carlos disse...

Edu, perdi em outubro um grande amigo. Tinha apenas 47 anos. Inteligente, alegre e generoso, me presenteou com vários livros e entre tantos uma bio de Bowie, de quem era fã. Lembro de ele ter me dito:
- Bowie era fã dos Beatles e passou dias trancado dissecando o Álbum Branco.
- Ainda em 67, regravou Penny Lane (sem novidades) que eu tenho).
- Quando Lennon morreu, ele desapareceu por 3 dias, inconformado. Foi encontrado delirando, se negando a acreditar, chapadão!

João Carlos disse...

Para conferir:

https://www.youtube.com/watch?v=iHb3GIQGoIM