terça-feira, 9 de outubro de 2012

JOHN LENNON E O HOMEM DO FUTURO ((ºJº))


Liverpool, 1945. Depois de completados cinco anos da mais completa ausência, Fred Lennon apareceu, e levou o filho de cinco anos para passar as férias em Blackpool. Planejava emigrar para a Nova Zelândia junto com o amigo que o hospedara e queria levar o menino consigo. Após algumas semanas, Julia foi buscar o pequeno John e Fred se convidou para acompanhá-los, mas ela recusou. A única coisa que queria é estar com o filho. O menino, então, teve de decidir com quem ficaria e, escolheu a mãe. Porém, Julia não tinha intenção ou condição de criá-lo de fato e o confiou aos cuidados de sua irmã, a Tia Mimi e do Tio George.
 Liverpool, 1958. Treze anos depois, o jovem Lennon completará 18 anos em outubro. Estamos em julho. Pela 1ª vez em sua vida, tudo parece estar bem. A reaproximação da mãe, a amizade com Paul e, sua banda, os Quarrymen finalmente parecem ter encontrado o rumo certo com a entrada do garoto George Harrison. Tinham até um empresário: Nigel Walley. Agora, sua mãe estava por perto e John mostrava-se animado com tudo o que estaria por vir. Como as coisas podiam mudar tanto assim? Um mês antes, os Quarrymen praticamente não existiam e quase nada sabia sobre Julia. Há tempos, as coisas não andavam tão boas. Até Mimi estava mais feliz. Então, tudo desabou! A morte surgiu para Julia Stanley quando esperava por um ônibus e foi brutalmente atropelada por um carro desgorvernado dirigido por um poilicial bêbado. Foi quando cheguei em Liverpool. Mas só iria encontrá-lo, de fato, dois dias depois. Durante esse tempo, apenas o observava.
 A morte da mãe, abalou e teve um efeito em John de forma devastadora. Estava arrasado. Por quê? Jamais aquele garoto poderia entender. Seu desempenho na faculdade de artes – que já era fraco – despencou. E o interesse pela banda, idem. Não adiantava fingir. Não adiantava fugir nem lutar contra si mesmo. Os perfis da verdade são cortantes, inequívocos, evidentes. No dia em que decidi encontrá-lo, perambulava sem rumo, pelas ruas de Liverpool. Como um homem de lugar nenhum. Até chegar às docas. Sentou-se e dirigiu o olhar perdido para a imensidão do mar. Depois, com a cabeça entre as mãos, começou finalmente a chorar. Foi quando me aproximei.
– Posso me sentar aqui, rapaz?
– O banco não é meu. Respondeu de forma dura.
Aquele era John Lennon. Tentando disfarçar, enxugou as lágrimas com os punhos cerrados e voltou o olhar para a imensidão do mar cinzento.
– Sinto muito pelo que aconteceu com sua mãe.
– Minha mãe? Como sabe de minha mãe?
– Acalme-se, sou um amigo.
– Amigo? Jamais vi você antes, aparece aqui do nada e fala em minha mãe.
Sua voz era áspera e o olhar fuzilante parecia me atravessar.
– Sei muito mais sobre você do que imagina, John Wiston Lennon.
– Há! Sabe meu nome completo, sabe da minha mãe e nunca te vi mais gordo. Quem diabos é você, cara?
– Já lhe disse. Apenas um amigo. Não sou uma ameaça. Vim de longe apenas para tranquilizá-lo.
– Essa é muito boa! Minha banda é uma merda, eu sou um merda, minha mãe está morta, meu pai foi embora, quero ficar só e ainda me aparece um doido que eu nunca vi na vida dizendo que é meu amigo e veio "lá-não-sei-de-onde" para me tranquillizar. É demais!
– Acalme-se. Sua banda não é uma merda e nem você é um merda. A menos que queira. Terá que trabalhar muito para conseguir chegar em algum lugar.
– Ah. Então você é um vidente, um advinhão?
– Mais ou menos isso, para ficar mais fácil para você.
– É demais. Devo merecer isto: “O espertalhão que via o futuro”!
– Você ainda não viu nada. Tem visto Paul?
– Paul? Eu sabia! Foi Paul quem o mandou, não foi?
– Ainda não me encontrei com Paul. Ninguém me mandou. Como já disse duas vezes, sou um amigo e vim para lhe assegurar que nem sempre tudo será tão ruim. As coisas vão melhorar. Tudo vai melhorar muito. O mundo vai melhorar muito graças a você! Acredite em mim.
– Ok. Já ouvi o suficiente. Agora você abre o jogo ou então cai fora antes que eu mesmo lhe esquente as orelhas. Entendeu, sabichão?
– Você é mesmo muito estúpido, rapaz! Acha que é um gênio, mas fica aí chorando com pena de si mesmo e morrendo de medo do mundo. As coisas não são tão ruins. Julia morreu, mas você não! O que vai fazer? Se entregar e morrer como mais um indigente de Liverpool ou lutar pelo que sonho que acredita?
– Quem é você, cara?
– Um fã. Um admirador. Adoro suas músicas.
– Admirador? Ora, vamos... como pode conhecer minhas músicas?
– Ouça, passei mais tempo em minha vida ouvindo suas músicas que qualquer outra coisa.
– Isso não pode ser verdade. Só pode ser uma alucinação. Isso não está acontecendo...
– Como pode conhecer minhas músicas se nunca gravei nada? E talvez nunca chegue a gravar qualquer coisa.
– Vai gravar muita coisa, pode ter certeza!
– Isso não está acontecendo...
– Está sim, Johnny. É tudo real.
– Muito bem. Não tenho mesmo o que fazer, então você tem alguns minutos para me explicar quem é, de onde veio e o que quer, antes que eu vá embora.
– Novamente, você está muito enganado. Tem muito o que fazer e não deve perder nem mais um segundo.
­– Vamos, Vovô: comece a falar!
– Muito bem, John Lennon. Vamos lá. Sei que é um cara inteligente e terá maturidade suficiente para entender tudo o que vou tentar lhe explicar rapidamente. Estamos no final de julho de 1958. Eu sequer nasci ainda. Só vou nascer em 1962, ano em que você e sua banda gravarão o primeiro de muitos, muitos sucessos. Estou com 50 anos. Vivo no século XXI no ano 2012. Exatos 54 anos distantes do aqui e agora. Ou seja, eu vim do futuro.
O jovem John Lennon me observava bem dentro dos olhos de forma bem séria com aquele olhar de coruja que pareciam que iriam sair da órbita por trás dos óculos que ainda não eram redondos. Depois de longos segundos olhando bem na minha cara, explodiu numa enorme, terrível e debochada gargalhada!
– Você é doido de pedra, vovô! Só pode estar chapado. Diga: o que você andou tomando? Tem mais? Dê-me um pouquinho!
– Não perderia meu tempo se achasse que não valeria à pena, John.
– Muito bem. Então vamos brincar. Quer dizer que você é do futuro e veio aqui para me contar o que o futuro me aguarda, não é?
–Se quiser ver dessa forma...
– Que gravaremos - como você disse - muitos e muitos sucessos?
– Isso mesmo.
– Então nós, os Quarrymen iremos bem longe?
­– Na verdade, não. Os Quarrymen logo não existirão mais.
­– Como assim?
– Logo trocarão de nome. Terão vários nomes até a escolha mais óbvia.
­– Como nos chamaremos?
– Isso não importa agora.
– Ora, se sabe mesmo diga como nos chamaremos!
– Um trocadilho com o nome de um inseto.
– Inseto? Quer dizer que conseguiremos fazer sucesso como “os insetos”?
– Já lhe disse, isso não importa agora.
– E o que é que importa, héin? Todo esse monte de lorotas...você não sabe é nada cara! Está tirando sarro com a minha cara!
­– Ok. Se não acredita, fique aí sentado esperando o tempo passar. E me levantei.
Seu olhar estava novamente perdido rumo ao oceano. Percebia seu desespero em tentar aceitar uma possível realidade que àquela época parecia totalmente absurda. Aquele era John Lennon, cheio de defesas. Quase um homem, mas ainda um menino acuado pelo medo do fracasso. Então, ele disse:
– Se é verdade metade do que disse, prove!

Foi quando tirei o primeiro ás que havia trazido na manga: um CD do álbum "Walls and Bridges", da coleção remasterizada em 2010 ainda lacrado. Assim que reconheceu seus desenhos e viu sua foto 16 anos depois no pequeno objeto, perdeu a voz. Dei-lhe o tempo que precisasse para assimilar a proporção da bomba que tinha nas mãos. Ele estava absolutamente hipnotizado.– "Não é possível..." era só o que conseguia dizer balançando a cabeça. Quando viu o pequeno disco, que reluzia mais do que ouro, com seu nome gravado lá, num objeto absolutamente alienígena, sentiu orgulho. Mas seus mecanismos de defesa foram imediatamente acionados e ele voltou a ser o mesmo garoto tolo, com medo de um futuro que ele tinha nas mãos. Então  conseguiu dizer somente:
– O que é isto?
– É um CD. Um Compact Disc. Uma tecnologia do futuro que substituirá os discos de vinil. Esse é um álbum que será gravado por você em 1974.
– "Não é possível..." era só o que conseguia dizer balançando a cabeça.

Ele não acreditava no que estava vendo e veio com a mão em direção ao meu ombro como se achasse que pudesse me atravessar... que eu desapareceria. Ali, ele estava praticamente dominado, mas não abaixou a guarda assim tão fácil não.
Por quase meia hora, ficou analisando o objeto. Vendo as fotos, lendo as letras, os músicos que o acompanhavam. A escolha de "Walls And Bridges" mostrou-se acertada por não haver ali, nenhuma referência explícita à Yoko Ono, evitando assim muito mais perguntas e constrangimento. Depois de mais alguns instantes, levantando os olhos em minha direção, disse:
– O único nome que reconheço aqui é o meu. E Paul? E George?
– Nessa época, assim como você, eles estarão ocupados com seus próprios projetos. Simples assim.
– Gostei de "Dr. Winston Boogie" (sorrindo).
– E do que não gostou?
– Quero ouvir o tem aqui. Onde podemos tocá-lo?
Foi então que tirei o segundo ás da manga. Um pequeno CD Player que mostrei-lhe com muita dificuldade como funcionava e coloquei-lhe fones de ouvido. Então, uma a uma, fui mostrando as músicas para ele. Tudo no mais alto e absoluto silêncio. Depois que terminou, perguntei o que achara. "Nada mal" ele disse. E ainda:
– Essa "Nobody Loves You" é linda.
– Você vai pegar o jeito pra coisa, brinquei. Novamente ele sorriu.
– Julian Lennon... meu filho!
– Sim.
– Quantos filhos eu terei? E netos?
Como eu já previa, o que se seguiu foi um borbardeio de questões sobre sua existência. Eu sabia que se embarcasse naquela de tentar responder perguntas meramente pessoais, acabaria me encrencando. Então mantive o restante da conversa com o foco dirigido puramente ao seu trabalho. Contei-lhe como ele e sua banda teriam de trabalhar duro até chegar o primeiro sucesso, depois outro e outro. De como conheceria o mundo inteiro levado unicamente por sua música. Da loucura que serão os anos da "mania" e da forma como nunca mais nada que fizesse passaria despercebido. Ele se divertia. Adorava quando eu falava do tamanho da fama e do sucesso que alcançará. Agora ele estava absolutamente relaxado e extrovertido. Arriscaria a dizer até, que estava "feliz". Era hora de voltar. Foi quando ele, parecendo saber a minha resposta, perguntou:
– Posso ficar com o CD? É para mostrar aos outros...
– Eu sei que é John, mas não pode não. Esse aí é da minha coleção. Por favor, autografe.
– Autografar? Ninguém jamais me pediu um autógrafo antes... como devo chamá-lo? Sequer sei seu nome.
– Coloque apenas "homem do futuro". E foi o que ele fez. Excitadíssimo e exalando positivismo por todos os seus poros, nos despedimos. Ele me deu um abraço carinhoso e correu o mais rápido que podia atrás do tempo que perdera. Minha missão estava cumprida.
Não poderia partir sem antes dar uma espiadinha no encontro do exaltado jovem Lennon com Paul. Ele estava eufórico e o exagero parecia natural:
– Paul, você não vai acreditar. Tive uma visão!
– Uma visão John?
– É. Apareceu um cara... disse que seremos grandes, os maiores!
– Apareceu como? De onde?
– Sei lá, talvez em uma torta flamejante ou o que você preferir. Disse que venderemos milhões de discos e que daqui há 50 anos ainda seremos os mais famosos. O que acha, hein?
– Humm. Um homem... numa torta flamejante... quem sabe um dia façamos uma música, não é mesmo? Por enquanto, tenho duas novas. Vamos ensaiar?
– Agora! Já perdemos tempo demais!

E então, fui embora. Com a certeza de ter feito um bom dever de casa. Para John, deixo uma mensagem que o tempo não levará: John Lennon, você foi o maior! Nobody loves you than me. Do seu amigo, "o homem do futuro".



E é isso. Essa história, totalmente inspirada pelas coisas que Lennon nos ensinou, como sonhar, foi a forma mais singela que encontrei de homenagear, sem nenhuma pretensão artística ou literária, o aniversário do nosso querido John. Apenas um exercício lúdico de criatividade. Nada mais. Happy Birthday, Johhny!

11 comentários:

Gustavo Semog disse...

SENSACIONAL!!!!!

Só podia ter lhe avisado para tomar cuidado em 08/12/80 =(

MUITO BOM!!!!

Valdir Junior disse...

ADOREI !!!!!!!!!!!!!!
Meus parabens Edu !!!
Quero acreditar nesse encontro , talvez ele ( o encontro ) mudou realmente o mundo !!!

Mais uma vez Parabens !!!

P.S : Vou guarda-lo junto das minha coisas dos Beatles !!!

Valdir Junior disse...

ADOREI !!!!!!!!!!!!!!
Meus parabens Edu !!!
Quero acreditar nesse encontro , talvez ele ( o encontro ) mudou realmente o mundo !!!

Mais uma vez Parabens !!!

P.S : Vou guarda-lo junto das minha coisas dos Beatles !!!

João Carlos disse...

Homi seu mininu! Estou abestalhado!sinceramente, um dos melhores posts que já li aqui e alhures.Vi hoje cedinho mas deixei pra ler com calma agora.Fiz bem! A rispidez de John, a paciência do narrador... biscoito fino.Sem pieguices. Tremendo texto mestre! Parabéns!

evelize volpi disse...

Meu Deus eu AMEI esta postagem Edu!
Adorei...que coisa bacana, haaaaaaaaaaaaa se pudesse ser verdade!
Adorei a histórinha, criatividade e a doçura viu!
Parabéns!

jonas gomes silva disse...

feliaz aniversario grande john . mais uma ves obrigado Edu .

Lidiane Pessoa disse...

Caramba! Demais!!!!! Adorei!!!! Fiquei arrepiada lendo isso!!!! muito legal!

Jeniffer disse...

Nem desejei feliz niver ao barbudão!! Fui dar uma de working class hero ontem, trabalhei igual a uma condenada! Post maravilhoso!!

Edu disse...

We all living in a yellow submarine...

Bruno Borsaro disse...

I'm the man on the flaming pie...

Gustavo disse...

FANTÁSTICO!